![]() [Antologia] - BrasilAntónio de Moraes Silva1 *João Cabral de Melo Neto ** A Aurélio Buarque de Holanda Fui conhecer Muribeca, a vila onde não morou, mas foi termo dos engenhos e livros que lá datou. Nada sobra dos engenhos que teve esse quarto avô e é até difícil saber, dos que tinha, ele habitou. Do Moraes do Dicionário, da cana que cultivou, de António de Moraes Silva, do Rio-rua Ouvidor, que preferiu Pernambuco quando a Europa o madurou, o que foi, de tanta terra, o que hoje em dia sobrou, o que a moenda do tempo ainda não mastigou?: O léxico em mel-de-engenho que ao português integrou, o pão alegre da cachaça que de certo destilou, a sintaxe canavial, a prosódia do calor, que escutou de sua rede nos descansos de escritor. Que teve canaviais e de engenhos foi senhor, basta ver o que é a vila de Muribeca, e seu teor. Tudo ali mostra que canas se alastraram no arredor: desde as igrejas cariadas que apodrecem sem fervor, à rua vã, boquiaberta, babando ocioso torpor. 1Poema de louvor a António de Moraes Silva, autor do Grande Dicionário da Língua Portuguesa, «obra monumental, em 12 volumes, com 12 278 páginas, registando 306 949 vocábulos, é o mais completo repositório da língua portuguesa e também a fonte mais segura de esclarecimento ortográfico, ortoépico, filológico e morfológico do idioma comum a Portugal e Brasil», segundo os editores do Novo Dicionário Compacto da Língua Portuguesa, de António de Moraes Silva (Ed. Confluência, Lda./Livros Horizonte, Lda., 1980), «edição compacta do Grande Dicionário de Moraes: cinco volumes que ocupam os doze da edição monumental». * In A Escola das Facas [1975-1980], Poesia Completa, Lisboa, IN-CM, 1986, pp. 38-39. :: 23/03/2010Sobre o Autor** Poeta e diplomata brasileiro (1920-1999). Textos Relacionados |
Textos de autores lusófonos sobre a língua portuguesa, de diferentes épocas. Maximiano Augusto Gonçalves ** |