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Brasil com roupa na língua?

Dizem muitos entendidos que a língua é como a roupa. Conforme a situação se usa. Assim como seria ridículo ir de fraque escalar os Alpes ou ir de botas de alpinista para um casamento, seria também ridículo usar linguagem erudita em situações coloquiais ou populares e vice-versa. Nada mais confuso, nada mais enganador! A comparação é boa, aliciante e sugestiva, por isso ela é extremamente perigosa e tem de ser denunciada, aos quatro cantos.

E por que está errada? A língua é de índole completamente diferente. A comparação, então, só se aplica parcialmente e, por isso, é tão enganadora.

A primeira grande diferença nesta comparação tem a ver com o uso. Geralmente, a roupa se conserva por não usar, e quanto mais se usa, mais se gasta e se deteriora até se ter de comprar uma nova. A língua é completamente ao contrário. Paradoxalmente, se não se usa, gasta-se e deteriora-se. Por outro lado, quanto mais se usa a língua, e se usa bem, mais nova, brilhante e vigorosa fica.

A segunda diferença tem a ver com a estrutura. A língua tem uma estrutura orgânica, mais parecida com o corpo humano do que com a roupa. De alguma forma, a gramática é o seu esqueleto. Ora, alguém, normalmente, pensa mudar de esqueleto, conforme as circunstâncias? Loucura!

A primeira conclusão que podemos tirar é de que devemos incentivar o uso do núcleo da linguagem erudita e ensiná-la desde a tenra idade, e não confundir as pessoas com padrões diversos: focar, ensinar e disseminar o padrão, e referir e explicar os desvios. Como diz o velho ditado “Para baixo todos os santos ajudam”. A vida encarregar-se-á de ensinar os desvios a cada um, que saberá encaixá-los no seu quotidiano. Só o uso frequente e o respeito por um padrão erudito nuclear aumentará a eficiência linguística e a comunicabilidade sem ambiguidade e confusão.

A segunda conclusão é de que se deve insistir no núcleo do padrão da linguagem erudita na grande maioria das situações. Isto não impedirá o uso de qualquer desvio em qualquer circunstância, pelo contrário, este terá um novo sabor se tivermos claro o padrão. Da mesma forma isto não será um desrespeito pelas diferenças. Antes, quanto mais claro, eficiente e unívoco for o idioma de intercomunicação, melhor repararemos nas diferenças regionais, sociais, etc, e as saborearemos e partilharemos, sem confusões.

Deste modo, não tem sentido, por exemplo, o fato de que são muito raros os filmes brasileiros onde seja respeitado o padrão linguístico exigido numa prova de vestibular; mesmo em filmes dublados, estrangeiros e referentes a épocas antigas.

O que muitos desses senhores que desejam a confusão querem, eu sei o que é: que o povo ande com roupa na língua, enquanto eles, com a sua nua e agitada, chicoteiam as massas, dominando-as. E àqueles que não conseguem dominar, entretêm-nos com atividades culturais, onde os elogios recíprocos os anestesia da situação atual do idioma, ou lhes dá uma falsa esperança de que essas atividades vão contribuir alguma coisa para a elevação cultural do povo.

Não tenho dúvidas: não há emancipação sem emancipação linguística. Não há igualdade de oportunidades sem a mesma fluência no padrão nuclear linguístico, para todos.

Paulo Manuel Sendim Aires Pereira :: :: Brasília — Brasil

[R] Calculamos que os comentários feitos se enquadrem na polémica à volta da publicação, no Brasil, do manual Por Uma Vida Melhor, a qual já mereceu referência na Abertura. Agradecemos ao consulente o texto de estilo bem apurado que entendeu enviar-nos, bem como as ideias que aí transmite a quantos acompanham o Ciberdúvidas.

C.R. :: 25/04/2014

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