![]() [Diversidades]O linguajar luandenseRui RamosO linguajar luandense tem particularidades que não existem noutro local de língua portuguesa. Embora o português seja já língua-mãe de muitos luandenses, a verdade é que uma língua não existe isolada do que a rodeia, seja a política, a cultura, a sociedade, a história, as classes sociais e os seus costumes. A língua portuguesa em Luanda sofreu algumas alterações interessantes, especialmente no discurso oral, em grande parte fruto do seu contacto com a língua local, o mbundu (ou kimbundu). Vamos ver alguns exemplos desse linguajar, ficando o registo de que Luanda é hoje amálgama caótica de culturas e de línguas. Há, então, várias formas de falar português na capital angolana. Uma das mais novas e «esquisitas» é a dos regressados do ex-Zaire, que carregam nos «erres», como se estivessem a falar francês. Os intelectuais e demais pessoas cultas tendem a aproximar-se do «português padrão», falando embora com os sons muito abertos e arrastados. Os exemplos a seguir podem considerar-se como o português popular de Luanda, mas muitas pessoas cultas também o utilizam. – «Ele é teu mais velho», em vez de «Ele é mais velho do que tu»
– «A Antónia, lhe deram pancada» («Deram pancada à Antónia», «A Antónia apanhou pancada»)
Quase não se usa «-no, -na, -nos, -nas», mas: «-lhe, -lhes»:
É interessante também notar que o kimbundu não usa as formas «eu nasci, tu nasceste, ele nasceu. nós nascemos, vós nascestes, eles nasceram», mas «nasceram-me, nasceram-te, nasceram-lhe...», respectivamente, «a-ngi-vualela, a-ua-vualela, a-ua-vualela...», à letra: «eles-me-nasceram, eles-te-nasceram, eles-lhe-nasceram...). «Eu nasci em Luanda» - «A-ngi-vualela mu Luanda».
Quando se quer pedir alguma coisa a alguém, diz-se muitas vezes: «Dá só!». O «só» corresponde ao usadíssimo «ngo» kimbundu. Também se usa «Anda só!»
Outras particularidades dos luandenses:
28/05/1997Sobre o Autorjornalista angolano |
Textos que versam sobre as variedades nacionais e regionais do português. |