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[O Nosso Idioma]

Os emergentes do idioma * *

Alex Sander Alcântara**

Fenômenos como a conjunção adversativa "só que" mostram que, no idioma, a necessidade de bem comunicar o que se deseja cria suas estruturas gramaticais

Emergente é conceito elástico. Em sociedade, é sinônimo de novo-rico. Em economia, batiza os países cuja explosão de desenvolvimento ainda não os levou ao primeiro escalão mundial.

Em gramática, há também os emergentes do idioma. São os recursos incorporados recentemente como gramaticais, sempre bom pretexto de desacordo entre especialistas.

Nem todo mundo está de antemão disposto a aceitar que uma novidade das ruas pode ter entrado no idioma para ficar. Mas, quanto mais os falantes sentem necessidade comunicativa, sistemática, de usar uma construção, uma estrutura de frase, uma locução ou palavra, mais ela tende a integrar o sistema da língua.

A emergência de uma categoria gramatical ocorre quando elementos lingüísticos adquirem novas propriedades, e se tornam membros de uma nova categoria. É quando palavras e construções de frase passam a assumir funções relativas à organização interna do discurso ou a estratégias comunicativas. O bate-boca vem de saber quando a freqüência de uso é tal que se atribui estatuto gramatical a construções e expressões usadas no cotidiano, em princípio, de forma acidental e independente.

Às vezes, uma mera locução leva à dúvida. É o caso de "só que", locução que emergiu na linguagem cotidiana com as características de conjunção.

Conjunções e disjunções

As conjunções, a propósito, conectam orações, relacionando um termo a outro. Desempenham, principalmente, papel de ligação, mas são também responsáveis pela direção da argumentação do texto. Dão, muitas vezes, a impressão de serem estáveis e imutáveis. Algo, portanto, que se aprende de memória. Mas, no curso evolutivo das línguas, esses conectivos são palavras sujeitas a constante renovação.

Dito dessa forma, falar dessa classe gramatical parece simples. Outros processos, contudo, podem interferir na função desempenhada pelas conjunções. Algumas palavras podem assumir de empréstimo, na comunicação diária, o papel exercido por elas.

Parece ser o caso da polivalente perífrase (locução com duas ou três palavras)  só que. Ela vem se cristalizando na língua como conjunção coordenativa adversativa, com valor de mas, observa Sanderléia Roberta Longhin-Thomazi, professora do Departamento de Estudos Lingüísticos e Literários da Unesp, em São José do Rio Preto (SP).

Na tese de doutorado A Gramaticalização da Perífrase Conjuncional "Só Que", defendida em 2003 na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ela descreveu e analisou o comportamento lingüístico dessa expressão.

— Restringi os exemplos da escrita aos textos de revista. O fato de ser usado na escrita mostra que o termo tem aceitação social — explica.

Variáveis

Nas amostras coletadas, a perífrase só que, segundo a pesquisadora, funciona como conjunção de natureza coordenativa, que tem a propriedade de estabelecer «um tipo particular de contraste».

Especificamente, é conjunção coordenativa adversativa:

«Rodolfo, ex-Raimundos, continua a fazer rock pesado. Só que com letras cheias de mensagens religiosas.»

Para Sanderléia, a característica do só que de apresentar-se como conjunção adversativa é invariável nas amostras lingüísticas. A partícula estabelece sempre uma relação de contraste. O aspecto variável dessa conjunção é que ela pode apresentar cinco sentidos no discurso. Pode ser marcador de diferença, refutação, surpresa, contra-argumentação e não-satisfação.

Só que promove uma quebra de expectativa e introduz a informação mais importante no enunciado — diz.

Gramaticalização

O fenômeno que explica o processo de mudança lingüís­tica sofrido pelo singelo só que — de criação anônima das ruas a integrante do sistema da língua usado por todos — é denominado gramaticalização, lembra a pesquisadora. A mudança acarreta alteração na categoria da palavra, num fenômeno similar ao que ocorreu com gente. Em «A gente não consegue entender o tema», gente é substantivo que virou pronome (= nós). Ocorreu aí gramaticalização, exemplifica Sanderléia.

Na prática, gramaticalização é, no Dicionário Gramatical da Língua Portuguesa (1966), de Celso Luft, o processo em que palavras (nomes, verbos) se tornam instrumentos gramaticais ou elementos com significação interna em outras palavras (partículas, afixos, verbos de ligação, preposições, conjunções).

É assim que o substantivo latino mens, mentis (no ablativo mente) virou, no português, um sufixo de advérbio de modo (em suavemente, docemente, etc.). Luft lembra que ocorreu o mesmo com o verbo haver, que virou sufixo verbal (cantarei = cantar hei; cantaria = cantar hia) e ter, hoje convertido em auxiliar de tempos compostos (tenho escrito). Os casos se colecionam. Verbos como andar viraram de ligação (anda pensativo) e palavras assumiram função conectiva:

Salvo, particípio de salvar («ele é cúmplice, salvo informação em contrário»)

Mediante, do verbo mediar

O número ordinal segundo

Visto (do verbo ver)

Substantivo caso

Na análise do gramático Evanildo Bechara, há de fato um processo de gramaticalização do só que em frases como a que cita Rodolfo, ex-integrante do grupo musical Raimundos. Mas, na sua avaliação, só que nunca poderá ser uma conjunção porque as conjunções representam uma parte da língua imutável.

— No sentido em que aparece, a perífrase só que é um advérbio, com valor de ainda — afirma Bechara.

Mutações orgânicas

Para o professor da USP, Ataliba de Castilho, o estudo sobre só que mostra a ampliação de conjunções no português brasileiro.

— A caminho da constituição de novas conjunções está o acho que, já dito [áxki] — diz Ataliba.

Em Um Roteiro Funcional para o Estudo das Conjunções (Mimeo), citado por Sanderléia ao abordar a história das conjunções, Rodolfo Ilari adverte que as conjunções constituem classe de palavras heterogênea e difícil de reduzir a definição única.

Na mesma linha, o lingüista francês Antoine Meillet, lembra Sanderléia, abordou a origem e o desenvolvimento histórico das conjunções. Com base nisso, ele afirma que, embora as condições pareçam favorecer a estabilidade das conjunções no curso evolutivo das línguas, elas são palavras sujeitas à renovação e até ao desaparecimento.

— Os índios guaranis mais novos usam uma conjunção, que escrevem "xóqui", que é a expressão só que adaptada às suas necessidades. Não há em guarani uma conjunção adversativa como as que se desenvolveram nas línguas indo-européias. Eles normalmente apontam esse sentido apenas apondo as sentenças. Isso é um argumento a favor da gramaticalização dessa expressão no português, uma vez que até mesmo falantes do português como língua estrangeira se dão conta de sua cristalização — analisa Waldemar Ferreira Netto, professor de Filologia e Língua Portuguesa da USP.

Orações correlatas

Segundo Sanderléia, as línguas indo-européias têm conjunções muito diferentes, algumas de origem obscura. Já as românicas possuem conjunções que se originaram de palavras ou de construções que não tinham sequer a função de conjunção em latim.

A gramaticalização está por trás de outros fenômenos do idioma. Segundo o professor de Filologia e Língua Portuguesa da USP, Marcelo Módolo, que em 2004 defendeu a tese Gramaticalização das Conjunções Correlativas no Português, as orações não se relacionam só por coordenação e subordinação, como definem as gramáticas. Um terceiro tipo seria a correlação, ou seja, as orações podem se ligar por meio de conjunções correlativas.

As correlatas, resume Módolo, andam aos pares:

«Não só Lula distribuiu Bolsa Família, mas também criou o Luz para Todos».

— As gramáticas do português costumam definir a coordenação como a relação sintática entre duas sentenças independentes e a subordinação como a relação em que uma sentença subordinada completa o sentido de uma outra, chamada matriz. Definições como essas são precárias, quando aplicadas à prática da análise. O mesmo acontece na classificação dos pares correlativos, que são classificados tradicionalmente entre as coordenadas e as subordinadas — questiona Módolo.

Proposta mais coerente, para o pesquisador, seria substituir a dicotomia coordenação e subordinação por um continuum, «como boa parte da literatura sobre combinação de orações tem proposto». Nesse sentido, a correlação seria uma etapa intermediária, recortando esse continuum e dividindo propriedades ora com as coordenadas, ora com as subordinadas.

Assim ocorre no período: «Ao obrigar a rede de 2.º grau a preparar seus alunos para essas provas, a Unicamp deu contribuição decisiva não só para a renovação pedagógica nos bons colégios, mas também para a própria transformação dos livros didáticos».

Módolo diz haver nesse trecho uma correlata aditiva, conectando dois complementos nominais de contribuição.

— As correlatas exemplificam uma relação de interdependência, isto é, a estrutura das duas orações que se correlacionam está vinculada por expressões conectivas — explica o pesquisador.

Categorias de correlação

Em outras palavras, a conjunção não só... não faz sentido numa frase separada da conjunção mas também. Módolo divide os pares correlativos em duas categorias.

Correlatas espelhadas (com repetição da conjunção); e

Correlatas não-espelhadas (com repetição de  conjunções distintas).

Assim, considera que as orações coordenadas aditiva e alternativa com dois elementos conjuntivos são, na verdade, correlata aditiva e alternativa. Igualmente, o fenômeno da correlação afeta as subordinadas adverbiais  com dois elementos conjuntivos (comparativa, consecutiva, proporcional). Para Módolo, esses três tipos de orações são correlatas e não subordinadas, como nas gramáticas.

«Marilda socorreu a pobre família e ainda adotou as órfãs.» (coordenada aditiva)

«Não apenas Marilda socorreu a pobre família, mas também adotou as órfas.» (correlata aditiva)

«Não sei se vou a Londres ou a Lisboa.»  (coordenada alternativa)

«Ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil.» (correlata alternativa)

«Ele nos adula como um sevandija o faria.» (subordinada adverbial comparativa)

«Hoje tenho mais medo de economista do que de general.» (correlata comparativa)

«Fala que parece um papagaio. Almocei que foi uma delícia.» (subordinadas adverbiais consecutivas)

«Tanto fez, que aceitou o castigo.» (correlata consecutiva)

O fenômeno da gramaticalização indica capacidade de revitalização da linguagem cotidiana e de sua capacidade de fixar novas estruturas com função gramatical. Impõe escolha entre construções, entre elementos com maior ou menor regularidade de uso, a previsibilidade de ocorrência de fenômenos entre os falantes, a que todos tendem a recorrer quando se comunicam. A gramaticalização atesta, na prática, a insuficiência de registro das gramáticas, condenadas que estão a correr, sempre, atrás do prejuízo.

O passo-a-passo da gramaticalização

O processo de gramaticalização ocorre devido às necessidades de comunicação de algum modo não satisfeitas pelas formas existentes no sistema do idioma e à existência de noções para as quais não há batismo lingüístico.

Uma variação no uso de uma expressão ocorre e, com ela, uma mudança de sentido provocada pela função que a expressão exerce num discurso.

Muitas vezes, novas formas que surgem no sistema lingüístico passam a coexistir com antigas. Estas não desaparecem de cara e passam a interagir com as emergentes. Em dado momento, a variedade de escolhas diminui e as formas selecionadas ganham corpo e significado no cotidiano dos falantes.

Até que uma expressão se gramaticalize, ela tende a ser usada com liberdade pelos falantes, sem uma função necessariamente específica. Até que ocorre uma diminuição de liberdade de manipulação e a expressão se integra a um paradigma, tornando-se cada vez mais obrigatória em determinadas situações.


Língua Portuguesa

* artigo publicado na revista em linha brasileira Língua Portuguesa, n.º 20 ( :: 08/06/2007

Sobre o autor

** Alex Sander Alcântara é jornalista e professor universitário, mestre pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Repórter da Revista IMPRENSA e da Agência Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).

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