![]() [Pelourinho]O lugar do pronomeMaria João Matos«…os documentos que encontram-se em anexo a esta acta» «Alguém pode-se lembrar…» «Junto enviamos-lhe o seu cartão…» «Nada mais exprime-se…» Começa a ser cada vez mais comum ouvir construções deste tipo, quer na oralidade quer na escrita. Os exemplos não acabam. O que não está bem é o lugar em que o pronome se encontra, neste caso depois da forma verbal. É o caso das frases simples, na forma afirmativa, que pedem pronome após o verbo, ligado por hífen: «Fala-se muito hoje em dia…» «As pessoas esforçaram-se imenso…» Já frases complexas, frases na negativa, ou quando o verbo vem antecedido de certas palavrinhas, o pronome não fica a seguir ao verbo, mas sim antes: «…os documentos que se encontram em anexo a esta acta» «Nada mais se exprime…» «Alguém se pode lembrar…» «Junto lhe enviamos o seu cartão …» Sem querer meter a foice em seara alheia, todos sabemos como na fala informal do Brasil se utiliza habitualmente o pronome antes do verbo: «Me diga o que sabe sobre este assunto…» «As pessoas se esforçaram imenso…» Trata-se de construções que em Portugal por norma não se ouvem. Digamos que, no português de Portugal, a colocação correcta do pronome é natural, não havendo distinção entre a língua coloquial e a língua culta. Já o mesmo não se passa com os nossos irmãos brasileiros que coloquialmente recorrem à próclise (pronome antes do verbo) - usam-na e soa bem, realça até a graciosidade da língua — mas que se confrontam, no português formal, com uma norma que impõe para a colocação pronominal as mesmas regras usadas naturalmente em Portugal. É confrangedor ver, com muita frequência até, sítios — e não apenas brasileiros — em que, num esforço de hipercorrecção, se atira com os tais incómodos apêndices para o lugar errado. E como a língua perde, santo Deus, em sonoridade, em naturalidade… em correcção, claro… O pior é que o fenómeno está a alastrar. A confusão parece estar instalada. E é assim que, cada vez com mais frequência, nos surgem, por parte de pessoas cultas ou com obrigação de o ser, em documentos oficiais, em cartas comerciais, na rádio (ai, ai, Antena 2!), essas anómalas construções. 18/07/2008 |
Registo e comentário crítico de maus usos da língua. atestação/significado de palavras |