[Pergunta | Resposta]

Cujo(s) e cuja(s) com preposição

[Pergunta] Como se emprega correctamente o pronome relativo "cujo", "de cujo", "com
cujo" e "sobre cujo"?

Filipe Vilanculo :: Estudante universitário :: Nampula, Moçambique

[Resposta] Segundo a Nova Gramática do Português Contemporâneo (p. 350) de Celso Cunha e Lindley Cintra, os pronomes relativos variáveis cujo(s), cuja(s) têm a particularidade de ser, «a um tempo, relativos e possessivos, equivalente[s] pelo sentido a “do qual”, “da qual”, “dos quais”, “das quais”, “de quem”, “de que”. Emprega[m]-se apenas como pronome adjectivo e concorda[m] com a coisa possuída em género e em número:

Convento d’águas do Mar, ó verde Convento,
Cuja Abadessa secular é a Lua
E cujo Padre-capelão é o Vento…
(António Nobre, S, 28)

Herculano é para mim, nas letras, depois de Camões, a figura em cujo espírito e em cuja obra sinto com plenitude o génio heróico de Portugal.
(Gilberto Amado, TL, 36)»

Assim como estes pronomes se empregam, morfologicamente, como estes pronomes adje(c)tivos, a nível sintá(c)tico, funcionam sempre como adjuntos adnominais, concordando sempre com o(s) nome(s) a que se referem e, às vezes, com o mais próximo. É o caso da frase seguinte:

«Há pessoas cuja aversão e desprezo honram mais que os seus louvores e amizade.
(Marquês de Maricá, M, 223)

[cuja = adjunto adnominal de aversão e desprezo, mas em concordância apenas com o primeiro substantivo, o mais próximo].» (idem, p. 345)
Às vezes, estes pronomes surgem precedidos de uma preposição – a, de, em, sobre, com –, o que se deve à regência que alguns verbos pedem/exigem e, nesses casos, a preposição tem a função de ligar o verbo ao seu complemento. Por exemplo, o verbo gostar implica o uso da preposição de, que o liga ao respectivo complemento. Imaginemos uma frase, do tipo – «O professor, de cujas aulas gosto, não veio à conferência.»
E o mesmo se pode dizer do verbo falar, que pressupõe o uso das preposições de, sobre ou com (ex.: «O escritor, de/sobre cuja obra te falei, é já muito velho»; «Os donos da quinta, com cujos filhos falámos, não puderam estar presentes»); do verbo assistir, que com a acepção de «estar presente» obriga o uso da preposição a (ex.: «A peça, a cuja representação nós assistimos, tornou-se cansativa»); do verbo esquecer, que pede a preposição de para fazer a ligação ao obje(c)to indire(c)to (ex.: «É a rapariga de cujo nome me esqueci»); do verbo interessar-se, que pede as preposições por ou em (ex.: «O cientista por cuja investigação me interesso»); o verbo lembrar-se, que implica o uso da preposição de (ex.: «O deputado, de cuja intervenção todos se lembram...»), o verbo concordar, que obriga a preposição com (ex.: «O filósofo com cujo pensamento eu concordo»). E ainda outros… que os falantes da língua conhecem.

Deve-se, portanto, a alguns verbos (que admitem regência) a necessidade da utilização das preposições – que, por sua vez, surgem como preposições intermédias de ligação aos complementos – e que, por vezes, precedem um destes relativos.

Eunice Marta :: 05/04/2006

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