![]() [Pergunta | Resposta]Ainda sobre o mirandês como língua[Pergunta] Se, como li no Ciberdúvidas, o mirandês não passa de um dialecto politicamente elevado a língua, pergunto, porque discordo: José Maria Sá :: :: Portugal[Resposta] O que distingue uma língua de um diale(c)to é sobretudo o diferente estatuto sociopolítico. Costumava-se dizer que uma língua (oficial) era a que tinha forças armadas, partindo do pressuposto que é soberano o Estado que a adopta. No entanto, nem sempre é assim, e na Europa há já experiências de países com línguas co-oficiais ou de outros que tinham diale(c)tos pertencentes a diferentes sistemas históricos que adquiriram estatuto oficial. É este o caso da Espanha, que, para além do castelhano como língua oficial, tem o catalão, o basco e o galego como co-oficiais na Catalunha (também das ilhas Baleares; no País Valenciano com muita polémica), no País Basco (com Navarra) e na Galiza. Julgo que a sua primeira pergunta parte da ideia de que o mirandês é um diale(c)to do português, o que não é verdade. O mirandês é um diale(c)to asturo-leonês em território português; historicamente, forma, portanto, parte do grupo de diale(c)tos que subsistem no Norte de Espanha, designadamente, nas Astúrias e em Leão. Daí que provavelmente o mirandês seja mais difícil de entender que os diale(c)tos brasileiro e alentejano, apesar do intenso conta(c)to que aquela língua manteve com os diale(c)tos portugueses de Trás-os-Montes. Em segundo lugar, é verdade que o catalão já teve praticamente o estatuto de diale(c)to entre os séculos XVII e XVIII. Contudo, a “Renaixença”, ou seja, o renascimento catalão no século XIX (a coincidir com o Romantismo e a Revolução Industrial), guindou esse “diale(c)to” ao estatuto de língua. Finalmente, o galego, que historicamente faz parte do sistema galego-português, encontrou-se durante muito tempo em estado diale(c)tal em Espanha. Foi também no século XIX, com o Rexurdimento (no fundo, a construção da consciência nacional e lingu[ü]ística galega) que os diale(c)tos galegos passaram por um processo que conduziu à actual norma galega e à sua afirmação como língua de cultura e da administração. Concluindo, o termo diale(c)to pode usar-se para designar a filiação num sistema lingu[ü]ístico [p. ex., «o micaelense é um diale(c)to do português europeu], mas é hoje sobretudo usado para definir um estatuto sociocultural e político distinto do que é conferido a uma língua. Carlos Rocha :: 25/05/2006Textos Relacionados |
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