![]() [Pergunta | Resposta]O uso de bué (= «muito»), novamente[Pergunta] Gostaria de saber como se escreve correctamente a expressão, muito usada pelos jovens [em Portugal], “buéda” ou “bué da”, com o significado de “muito”, como “bué da fixe”. Sílvia Cabral :: :: Portugal[Resposta] A forma consignada no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa para o advérbio em apreço é apenas bué sem ser seguido de elementos como de ou “da”. No entanto, todos sabemos que, pelo menos, em Portugal, se diz «bué da fixe/frio/difícil/dinheiro», tal como se usa sem preposição («bué frio») ou depois da palavra que modifica («frio/difícil bué»), podendo acompanhar tanto adje(c)tivos (fixe, frio, difícil) como nomes (dinheiro). O elemento “da”, que será a preposição de, surge por vezes como alteração da sílaba de quando esta ocorre em posição átona final. Por exemplo, é frequ[ü]ente ouvir entre os jovens (e até os muito menos jovens) expressões como «ena, pá, “ganda” carro», em que a forma “ganda” não é mais que o adje(c)tivo grande, com supressão do som correspondente a r e alteração do som associado ao e átono final, que passa a um a fechado. Como a preposição de constitui uma sílaba átona, é, pois, de esperar que a pronúncia em certos registos seja também “da”. Se “da” é afinal a preposição de, teremos de explicar a razão da sua ocorrência. Se bué é «muito», para quê a preposição, se não dizemos *«muito de fixe» nem *«muito de dinheiro»? Não encontro uma explicação clara para a emergência de “da” (= «de»). Tem-se sugerido a influência do francês “beaucoup de”. Não existirá aqui também um resquício da origem angolana? Por exemplo, no Dicionário Etimológico Bundo-Português do P. Albino Alves (1947), encontro a forma mbuwe, que significa «abundância, fartura». Contudo, não consegui confirmar noutras obras se é esta a origem do bué português nem pude saber quais eram as propriedades sintá(c)ticas e semânticas de mbuwe. Em conclusão, “da” é a preposição de, logo, a grafia mais adequada é «bué de». Carlos Rocha :: 10/11/2006Textos Relacionados |
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