ciberduvidas Ter dúvidas é saber. Não hesite em nos enviar as suas perguntas. Os nossos especialistas e consultores responder-lhe-ão o mais depressa possível.

[O Nosso Idioma]

Qual a regra gramatical que permite a forma presidenta?

Maria Regina Rocha*

A propósito da eleição de uma mulher para a presidência da Assembleia da República, em Portugal — e depois do que já ocorrera com a eleição de outra mulher para a chefia do Estado brasileiro —, volta a surgir a dúvida: «a presidente», ou «a presidenta»?

A forma recomendada é «a presidente» (do latim praesidens, praesidentis).

Na análise desta questão há três aspectos a considerar: o porquê da existência da forma «a presidente»; os argumentos a favor da tentativa de criação da forma «presidenta»; a ausência de suporte gramatical que justifique a formação desta palavra.

1. Em primeiro lugar, deverá referir-se que os substantivos terminados em -nte são comuns de dois, isto é, têm só uma forma para o masculino e para o feminino, fazendo-se a distinção entre um género e o outro apenas pelo artigo. São muitos os exemplos deste tipo de substantivo: «o/a adolescente», «o/a agente», «o/a amante», «o/a arguente», «o/a assistente», «o/a cliente», «o/a combatente», «o/a comerciante», «o/a confidente», «o/a concorrente», «o/a consulente», «o/a correspondente», «o/a crente», «o/a delinquente», «o/a descendente», «o/a doente», «o/a emigrante», «o/a indigente», «o/a ouvinte», «o/a paciente», «o/a presidente», «o/a regente», «o/a representante», «o/a requerente», «o/a sobrevivente», «o/a suplente», «o/a tenente», «o/a traficante», «o/a viajante», etc. Exceptua-se «a parturiente» que, por razões óbvias, tem apenas feminino.

Estas palavras são provenientes do particípio presente dos verbos (ainda em latim ou já em português), com o significado primitivo de «aquele ou aquela» que age, que combate, que concorre, que consulta, que preside, etc. A terminação da palavra tem que ver com a acção, e não com quem a pratica (masculino ou feminino), que vem identificado apenas no artigo.

2. Há, no entanto, dicionários, e mesmo gramáticas, que registam a palavra presidenta.

No que diz respeito aos dicionários, tal significa que resolveram registar um modismo ou um termo de registo coloquial ou popular: estão no seu direito.

Quanto às gramáticas, estas referem o facto de ser um termo de curso restrito no idioma ou de ser utilizado popularmente, de não ter lugar na norma culta.

De referir, a título de curiosidade, que há quem cite o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, de Morais, que refere a forma «presidenta». Ora, é interessante observar as duas abonações aí registadas: numa, o termo é utilizado ironicamente, na outra, o autor considera incorrecto o seu uso. Vejamos: de Castilho, «Mais gratidão lhe devo, imortal presidenta» (Sabichonas, III, 2); de Mário Barreto, «Dissentimos a que uma senhora se lhe chame presidenta (…)» (Factos da Língua, cap. 16, 203).

Claro que se poderá argumentar com o facto de a língua ser dinâmica, mas tal argumento, por si só, tem alguma fragilidade, pois a evolução da língua pauta-se por normas. Se, gradualmente, uma comunidade de falantes começa a adoptar um termo e lhe confere legitimidade até o guindar à norma culta, trata-se de um processo natural, e não há nada a obstar, mas não deverá passar a considerar-se correcto um termo ou uma construção apenas porque alguém com poder social ou político lhe tenta conferir essa qualidade, seja porque, realmente, considere o termo correcto, seja porque tem uma outra intenção, de natureza não linguística, na defesa ou na exigência do seu uso.

3. Importa compreender que a criação da palavra «presidenta» assenta na visão simplista de quem associa a terminação «a» ao feminino.

Ora, por um lado há diversas palavras que terminam em «a» e designam pessoas do sexo masculino (exemplos: o papa, o monarca, o patriarca, o astronauta, o autarca, o pirata, o profeta, o poeta, o guarda, o colega, o camarada, o indígena, o artista, o jornalista, o ciclista, o pianista…), por outro, o morfema feminino «a» tem como correspondente o morfema masculino «o», e não a terminação «e».

No caso das palavras finalizadas em -nte, esta terminação não é característica do masculino: é uma terminação que designa seres tanto masculinos como femininos e que até surge em palavras que são gramaticalmente femininas (por exemplo, a gente, a serpente).

Assim, não há nenhuma regra que permita considerar que as palavras terminadas em «e» são masculinas e que o seu feminino se forma passando esse «e» a «a».

Aliás, uma das riquezas da língua portuguesa é a da diversidade na marcação do género em substantivos que designam pessoas: há substantivos com o género marcado, que são os biformes (exemplos: «o menino», «a menina»; «o barão», «a baronesa»), e há os substantivos que não têm marcação de género, os uniformes, que tanto podem ter um artigo que indica o género (exemplos: «o/a repórter»; «o/a dentista») como podem ter um artigo fixo, sendo apenas o contexto que nos fornece informação sobre o facto de se tratar de um indivíduo do sexo feminino ou do masculino (exemplos: «a pessoa», «a criança», «a testemunha», «o cônjuge»).

Não queria deixar de referir dois vocábulos que têm a terminação -nta e que costumam ser dados como exemplo na argumentação a favor da criação da forma «presidenta»: infanta e governanta. São duas palavras que considero não terem validade como exemplos neste contexto.

A palavra infanta é, efectivamente, uma forma feminina correspondente ao masculino infante, mas é um vocábulo que, em rigor, não foi formado da palavra portuguesa infante. A palavra infante é proveniente do latim infans, infantis, que significava «aquele que não fala», «aquele que tem pouca idade», «criança», passando, em português, também a designar «filho do rei, irmão do príncipe herdeiro», «irmão do rei». A palavra entra no português como substantivo comum de dois («o/a infante») e assim é utilizada até aos clássicos, nas acepções acima referidas. Entretanto, por influência do francês (língua na qual o termo tinha forma masculina e feminina: un infant, une infante), começa a utilizar-se o termo infanta, mas apenas na acepção de «filha de rei ou de rainha, não herdeira da coroa», e não nas outras acepções. O termo infanta não é, pois, formado do pretenso «masculino» infante, mas provém do francês. Nenhum dos outros vocábulos terminados em -nte provenientes do latim e contemporâneos da palavra  infanta assumiu a terminação desta.

Quanto ao termo a governanta, não se trata do feminino de o governante, mas, sim, de uma palavra que derivou desta, assumindo um significado diferente. Assim, existe «o governante» e «a governante» e, por outro lado, «a governanta», correspondente feminino de «o mordomo».
De referir que as outras palavras terminadas em -nta são normalmente de registo popular, pelo tal motivo de as pessoas, de uma forma simples, associarem a terminação «a» ao feminino (exemplo: parenta).

Assim, seguindo a regra da morfologia no que diz respeito aos substantivos comuns de dois terminados em -nte (são uniformes), deveremos dizer «a presidente», «a senhora presidente».

04/07/2011

Sobre a autora

* Maria Regina Rocha, licenciada em Filologia Românica pela Universidade de Lisboa; parte curricular do mestrado em Ciências da Educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra; professora na Escola Superior de Educação de Coimbra, onde lecciona várias disciplinas na área da Língua Portuguesa

Enviar:

O Nosso Idioma

Textos de investigação/reflexão sobre língua portuguesa.

À volta da palavra espólio
A importância linguística e literária da Peregrinação
«Ele é muito "confartador"»
O triunfo do "OK!"
Prescrever
«Espero que "estejes" certo e "sejes" feliz»
«Casebre não é "diminuitivo" de casa»
Os livros digitais
«Os sinistrados foram "evacuados"»
Porque será que temos "câmbria"?

Temas

A arte do uso da linguagem

Acordo Ortográfico

Aportuguesamento de termos estrangeiros

Concordância

Ensino

Escritores e poetas

Estrangeirismos

Evolução semântica

Género

Gerundismo

Gírias

Histórias de palavras

Interpretação dos provérbios

Léxico

Literatura

Neologismos

O português do Brasil

O português em Angola

O português em Timor

O português, língua científica

O uso e abuso da língua inglesa

Onomástica

Pontuação

Português do Brasil vs Português europeu

Pragmática

tecnologia

toponímia

Unidade e diversidade da língua

Uso e norma

Uso inadequado do léxico na política

Uso incorreto do léxico na comunicação social



Autores

Abel Barros Baptista

Afonso Peres

Agostinho de Campos

Alex Sander Alcântara

Alfredo Barroso

Álvaro Garcia Fernandes

Ana Goulão

Ana Martins

Ana Sousa Martins

Anselmo Borges

António Costa Santos

António Dinis da Cruz e Silva

António Pinho Vargas

António Valdemar

António Vieira

Arnaldo Niskier

Augusto Soares da Silva

Augusto Soares da Silva; Marlene Danaia Duarte

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Reis

Carlos Rocha

Carolina Reis

Cecília Meireles

Chico Viana

Daniela Cordeiro

Desidério Murcho

Diogo Pires Aurélio

Duda Guennes

D´ Silvas Filho

Edgard Murano

Edno Pimentel

Eduardo Cintra Torres

Eduardo Prado Coelho

Eugénio de Andrade

Fernando Braga

Fernando Sabino

Fernando Venâncio

Fernando Venâncio Peixoto da Fonseca

Ferreira da Rosa

Ferreira Fernandes

Ferreira Gullar

Francisco Belard

Gonçalo M. Tavares

Henrique Monteiro

Ida Rebelo

Isabel Coutinho

João Bonifácio

João Cabral de Melo Neto

João de Melo

João Paulo Coelho de S. Rodrigues

João Paulo Cotrim

Joaquim Ferreira dos Santos

Joaquim Vieira

Jorge Daupiás

Jorge Miranda

José Eduardo Agualusa

José Luis Peixoto

José Mário Costa

José Neves Henriques

José Paulo Cavalcanti Filho

José Saramago

José Tolentino Mendonça

Luciano Eduardo de Oliveira

Luís Campos e Cunha

Luís Carlos Patraquim

Luís Fernando Veríssimo

Luís Francisco Rebelo

M. Rodrigues Lapa

Manuel Alegre

Manuel Bandeira

Manuel Gonçalves da Silva

Manuel Matos Monteiro

Manuel Rodrigues Lapa

Manuel Rui

Margarita Correia

Maria Helena Mira Mateus

Maria Lúcia Lepecki

Maria Regina Rocha

Mário Bettencourt Resendes

Mário de Carvalho

Mário de Carvalho

Mário Ramires

Mário Vieira de Carvalho

Marta Martins Silva

Miguel Esteves Cardoso

Nelly Carvalho

Nuno Crato

Nuno Júdice

Nuno Pacheco

Olavo Bilac

Padre António Vieira

Pasquale Cipro Neto

Paulo Araújo

Paulo J. S. Barata

Paulo José Miranda

Paulo Moura

Paulo Pisco

Pedro Mexia

Ricardo Araújo Pereira

Ricardo Nabais

Rita Pimenta

Robert Macpherson

Rodrigues Lobo

Rui Araújo

Sandra Duarte Tavares

Sara Leite

Sérgio Rodrigues

Sírio Possenti

Teixeira de Pascoaes

Telmo Verdelho

Ursulino Leão

Vários

Vasco Barreto

Vasco Graça Moura

Vasco Pulido Valente

Vítor Bandarra

Wilton Fonseca


Mostra todos

Ciber Escola Ciber Cursos